
Por Marilha Naccari, diretora-presidente da Associação Cultural Panvision que participou do evento mundial em Belém (PA)
"Depois de dez dias intensos circulando pelos pavilhões, auditórios, corredores e filas da COP30 — ouvindo debates, observando disputas e tentando entender o movimento vivo de tanta gente reunida para falar de futuro — fica impossível sair da Conferência sem uma sensação dupla: a de urgência e a de responsabilidade. Urgência porque o tempo do planeta não acompanha o tempo das negociações; responsabilidade porque cada área que compõe o ecossistema da COP precisa assumir o que lhe cabe na construção de uma transição justa. É dessa mistura de cansaço lúcido e clareza renovada que surge esta primeira reflexão.
Falar da COP a partir do audiovisual é assumir que imagens e narrativas não são ornamento do debate climático, mas parte da sua base social. O audiovisual latino-americano, com sua força de criar linguagem comum, memória coletiva e dar visibilidade, pode impulsionar o letramento para uma transição justa. Não apenas como conscientização, mas como formação de percepção e disputa de futuros.
Transições não se fazem só com metas e tecnologia. Elas acontecem quando a sociedade entende o que está em jogo, reconhece desigualdades e se imagina dentro do processo. O audiovisual atua nesse ponto entre razão e sensibilidade. Ele traduz complexidades, provoca identificação sem esconder conflitos, ilumina escolhas e seus custos, conecta o local ao global sem dissolver o território.
Por isso, ao observar a COP, o olhar do audiovisual busca mais que resultados diplomáticos. A justiça ou injustiça da transição aparece não só nos acordos, mas na capacidade das vozes de se manterem dentro do processo. O audiovisual contribui ao levar o debate para vidas reais sem cair no consenso fácil nem repetir sacrifícios históricos. A pergunta central é a que custo, para quem e quem aguenta permanecer nesse processo sem ser esmagado.
A emergência climática pede ampliação de vozes. Se a COP quer ser arquitetura do futuro, precisa ser também um protótipo de convivência capaz de sustentar diferentes corpos, ritmos e presenças. Não é acomodar exceções, é reconhecer a diversidade como estrutura do mundo. Na prática, isso ainda falha no básico. Faltaram acessibilidade física e neuroacessibilidade: poucos espaços com Libras e legendas, pouca sinalização, pouco piso tátil, rotas confusas e informação operacional frágil. Tornar a COP acessível não é criar anexos adaptados, mas redesenhar o evento como ecossistema que garanta presença plena.
A COP produz um paradoxo: mantém a esperança de ação coletiva, mas opera por negociação lenta que muitas vezes protege quem já tem poder. Nem todo interesse merece a mesma legitimidade só por estar à mesa. O critério é o impacto: quem paga, quem ganha tempo, quem perde no futuro.
Se o audiovisual pode contribuir para essa transição, então sua tarefa não é apenas circular filmes “sobre clima”. É ajudar a sociedade a ver que o futuro é disputa de narrativas e pertencimento, que o custo da urgência não pode cair nos mesmos corpos, e que nenhuma transição será justa se o próprio processo já nasce excluindo quem deveria estar inteiro dentro dele".
